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Norma-Padrão e Norma Culta são sinônimos?

Apesar de bastante difundida, a ideia de que Norma Culta e Norma-Padrão se referem à mesma coisa é errônea, como passamos a discutir. Quando cursava o primeiro período do curso de Letras, lembro-me de ter perguntado à professora de Linguística se a Norma Culta e a Norma-Padrão não seriam sinônimas, ao que ela respondeu negativamente; deu-me alguns exemplos e deixei a sala de aula com a quase certeza de que seriam de fato a mesma coisa.

Ao longo dos anos, no entanto, e com o meu progresso nos estudos linguísticos, pude perceber claramente que não o são. Ora, o que é a Norma Culta senão os hábitos linguísticos da maioria dos falantes escolarizados de uma determinada região? Tomando esta definição por correta, seria possível, em tese, que os falantes escolarizados de uma determinada língua, mudando os seus hábitos linguísticos e passando a escrever/falar "nós vai", instituíssem uma nova Norma Culta. Na realidade, dadas as mutações naturais que ocorrem nas línguas ao longo de séculos, seria plausível imaginar que, deixada a seguir o seu curso normal tal qual um caudaloso rio, a língua tornar-se-ia muito diferente da que é atualmente, como defende Carlos Nougué em sua magna Suma Gramatical da Língua Portuguesa, da editora É Realizações.

Pois bem, é precisamente daí  que advém o papel fundamental da Norma Padrão. É esta, parafraseando Cunha & Cintra (2016), a força centrípeta da conservação que garante a superior unidade de um idioma como o português, que é falado por povos espalhados pelos cinco continentes. Vemos que, ainda que os falantes cultos de cada um desses países falem ou escrevam de uma maneira diferente da dos demais, é a Norma-Padrão que regerá a comunicação entre eles. Ela é imutável e eterna, pois não se restringe, como sugere Coseriu (1973), ao que um determinado grupo de falantes pode dizer numa língua num dado período sincrônico, mas ao que já se disse e tradicionalmente se diz desde a normatização do português, a partir do séc. XVI.

Portanto, por mais que se assemelhe à Norma-Padrão, a Norma Culta está no mesmo patamar de outras normas (no sentido de o que é usual, de praxe), como a norma coloquial ou a norma literária. Apenas é a que mais prestígio tem, na medida em que procura submeter-se à Norma-Padrão; nem sempre o consegue, pois cada vez mais lemos e ouvimos pessoas cultas, professores catedráticos e autoridades a proferir enunciados que têm a aparência de serem Padrão, mas na realidade não o são. Seguem alguns exemplos:

Norma Culta
«No próximo bimestre, a gente vai estudar as Grandes Navegações.» Note-se que falantes cultos seguem as regras de concordância verbal, ou seja, não dizem «a gente vamos»* ou «nós vai»*.

Norma-Padrão
«No próximo semestre, estudaremos as Grandes Navegações.»
«... vamos estudar...»
«...nós vamos estudar...»

Norma Culta
«Preciso ir ao supermercado.»
Falantes cultos sempre empregam este verbo como transitivo direto se seguido de verbo no infinitivo, apesar de gramáticos brasileiros defenderem a facultatividade da preposição «de» em construções como esta.

Norma-Padrão
«Preciso de ir ao supermercado.»
O verbo «precisar» é transitivo indireto, ou seja, seleciona sempre preposição "de", precisa-se de algo e precisa-se de fazer algo. Portugal e os demais países lusófonos seguem a Norma.

Norma Culta
«Não faz isso!»
Em português, o imperativo negativo é suprido pelas formas do presente do subjuntivo. Não existe a combinação «não + imperativo afirmativo», como se lê na frase acima. No entanto, falantes cultos dizem-no rotineiramente.

Norma-Padrão
«Não faças isso!» (quando tratamos o nosso interlocutor por «tu ») ou «Não faça isso!» (quando o tratamos por «você» ou «o senhor»)

REFERÊNCIAS

  • CUNHA, CELSO; LINDLEY CINTRA, LUÍS F. Nova Gramática do Português Contemporâneo: 7ª ed. Rio de Janeiro: Editora Lexicon, 2016.
  • Sincronía, diacronía e historia: el problema del cambio lingüístico, 2.ª ed. Madrid, Gredos, 1973, p. 55.

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